Gaslighting Manipulação, realidade e poder político
Gaslighting
Manipulação, realidade e poder político
O termo gaslighting surgiu na peça teatral Gas Light (1938) e em suas duas adaptações cinematográficas, que retratam uma relação abusiva na qual o marido manipula a esposa ao apagar e acender as luzes do apartamento, levando-a a questionar sua própria sanidade. O conceito foi posteriormente adotado pela psicologia para descrever uma forma insidiosa de manipulação interpessoal em que o perpetrador corrói a percepção da realidade da vítima por meio do engano e da distorção da verdade.
Para Paige Sweet (2019), o gaslighting é um fenômeno inerentemente sociológico, enraizado em desigualdades estruturais e institucionais. O abusador se aproveita dessas assimetrias de poder para reforçar vulnerabilidades relacionadas a gênero, raça, nacionalidade e sexualidade, fazendo com que a vítima questione suas próprias experiências de discriminação e violência.
"Quando tentei descrever por que me sentia ostracizada por causa do meu gênero, meus colegas pediam exemplos — e então passavam por cada um deles para 'demonstrar' que eu havia interpretado mal o que havia acontecido."
Kate Abramson, 2014 — exemplo ilustrativo de gaslighting pessoalDimensões do conceito
O gaslighting expandiu-se para além das relações íntimas, abarcando dimensões raciais, culturais, jurídicas, epistêmicas e políticas. O gaslighting político — a distorção da verdade e da realidade para consolidar e avançar agendas de poder — funciona como uma lente para compreender a política pós-verdade. Ele mobiliza a autoridade epistêmica política, ou seja, a confiança depositada pelos cidadãos na expertise dos representantes eleitos, para disseminar desinformação capaz de solapar a capacidade do público de distinguir fontes confiáveis de fontes enganosas.
As três estratégias de Rietdijk
Essas estratégias interdependentes exploram desigualdades estruturais para desestabilizar e desorientar a opinião pública. O resultado é uma dinâmica perniciosa que erode a autonomia epistêmica dos cidadãos — sua capacidade de se orientar por fontes confiáveis para exercer a autogovernança —, comprometendo, em última instância, o próprio funcionamento da democracia.
O caso da pandemia de COVID-19
Para Jason Hannan (2022), a desinformação ao longo da pandemia de COVID-19 representa o exemplo mais acabado de gaslighting político contemporâneo. Após anos de restrições, governos ocidentais desmantelaram a infraestrutura pandêmica e promoveram a narrativa de que era hora de "aprender a conviver com o vírus". Essa realidade construída, porém, contrariava frontalmente as evidências de epidemiologistas e médicos acerca dos riscos sérios de saúde associados mesmo aos casos leves da doença, bem como o colapso de sistemas hospitalares observado em vários países. Ao desacreditar especialistas e mobilizar sua autoridade epistêmica para impor uma contranarativa de encerramento da crise, os governantes distorceram a percepção coletiva da realidade em escala sem precedentes.

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